quinta-feira, 28 de agosto de 2008

"And I knew it was a dream"

O que eu tenho para dizer?

Posso, talvez, tentar, agora que já se passou tanto tempo, reconstituir a cinemática daquele movimento contido, os passos medidos, o bater dos saltos no cimento riscado; muito embora tudo exposto é quase certo que esta própria imagem que possuo daquele quadro, firme inscrita em algum ponto vago de minha mente, esteja banhada de tons que não me remetem à estética que tanto admirei, ao ponto de achar como o melhor quadro em movimento que já havia visto em toda a minha vida.

Se me lembro das luzes dos postes? Pudera ser daquelas que atraem garbosas aleluias após as primeiras chuvas de verão: suas pequenas asas se soltando após o impacto com a lâmpada quente; o etéreo vapor que surge no momento do sublimar de suas pequenas antenas; enfim, a queda solitária destes Ícaros tão substanciais e tão ignorados por nós.

Não creio. Pela imagem que teima em trepidar quando fecho meus olhos à noite, acho que eram luzes brancas: inertes, profiláticas, sanitárias. Mais que isso: luzes que, num jogo de esconde e surge, delimitavam muito bem o passeio na qual ela desfilava.

Foi poucos dias antes da morte de meu pai.

Eu já havia a visto algumas vezes pelos corredores. Não havia chamado a minha atenção de pronto, embora fosse linda, de feições delicadas, mas olhar forte. Decididamente, era uma das mais belas de nossas salas.

Ocorre que, à época, eu pensava em outras coisas: coisas que me impediam de todo a despertar. Filosofava em esquinas e beiradas, no mundo lírico que desatava em mim os maiores sentimentos que já sentira, disso eu tinha certeza.

Aliás, minto. Embora te confesse isto, hoje vejo como tudo é apenas romantismo. E é justamente este mesmo romântico que me acossa no agora, quando tento revisitar esta pequena nódoa de passado que navega em meus sonhos.

Aquele dia, em especial, seria como todos os outros. Exceto porque ela estava em minha sala. Donde podia observar o quarto da mulher das cortinas do outro lado da rua: janelas largas donde ela abria e fechava as cortinas de forma incessante, fazendo as vezes de obturador.

Um pouco antes, certo dia, eu conseguira ser alcançado pela mulher das cortinas, enquanto atravessava as ruas para a biblioteca. Ela se apossou do meu lado, me espiando com uns olhos frios. Um calafrio percorreu-me com aquela vista tão cristalina, tão contundente. Permiti um minuto para que ela tentasse esboçar alguma conversa, embora já soubesse, por outros, que ela nunca falava nada.

Só os olhos me olhavam. Olhos que pareciam vivos, apartados dela. Íris flamejantes que buscavam em cada abertura de minha guarda uma brecha para picotar meus pensamentos. Sentia um incômodo tão grande, que só consegui murmurar um “boa tarde” enquanto me escorregava pra longe daqueles laços. A mulher das cortinas permaneceu no mesmo lugar desde então.

Mas como havia dito, estávamos em minha sala: eu, meus chefes, meus subordinados, e ela. A burocracia que me afastava milhas de todos os meus colegas de trabalho permitiu que, entre a interminável soma de números e projeções, eu conseguisse prestar um mínimo de atenção e vislumbrar seu abandono: no modo como ela arrumava os cabelos atrás da orelha, na displicência do balançar os sapatos na ponta dos dedos enquanto escrevia, no olhar triste que se erguia das folhas e papéis para acompanhar o espetáculo que não merecia sua atenção.

Pouco tempo depois, acho que lembro que ela me olhou. Eu tenho absoluta certeza da cara que de espanto que estaria passando, embora possa estar exagerando. Ali, em pleno árido, a maravilha, única, exuberante, tão oculta porque tão evidente. Sei que com esse olhar, devo ter passado uma impressão de bobo, de perdido. Mas eu estava evidentemente desnorteado. Tão desnorteado que perscrutei os edifícios do outro lado, procurando a senhora da janela com cortinas, mas onde deveria estar seu abre e fecha, encontrei as cortinas fechadas.

As horas transcorriam enquanto eu continuava absorto em minha nova descoberta, a minha nova alegria. Ela não me olhou mais, e hoje duvido que tenha olhado da primeira vez: a lembrança nos prega peças.

O que sei é que o tempo voltou a correr quando os participantes levantaram, dando por encerrada a reunião.

Assustado, eu recompus meus papéis e livros, já que pego de surpresa. Murmurei alguns cumprimentos e apertos de mão frios, em conjunto a tapinhas no ombro que simbolizavam a hipocrisia que operava a sala entre os participantes. Enquanto saíamos, alguns ainda conseguiram me retardar, procurando explicações sobre números que eu não havia dito, nem sobre os quais, ditos por outros, eu prestara o mínimo de atenção. E eu perdi momentaneamente de vista aquela que habitaria meus sonhos pouco tempo depois.

Saindo da sala, nos corredores angulosos, alguns colegas me chamavam para farras e putarias: era sexta-feira. Eu pressupus que, pelo tardar da hora, ela tomaria o rumo da condução, para sua casa, ou para qualquer outro lugar que eu desconhecia e torcia para que não existisse. Porque eu torcia para que eu tivesse lido o concreto, a solidão que existia nela, e que esta fosse sua verdade. Solidão que eu trataria de preencher completamente, sim, este era meu desejo.

Desvencilhando dos vários colegas que se apinhavam em meu caminho, atrasando-me inutilmente, dobrei a curva do último corredor que dava para fora do prédio, rumo ao estacionamento e a condução.

E ali ela caminhava.

Os passos contidos, o movimento medido. Tentei ainda me fazer presente: gracejei alto com uma outra que ali passava, pedindo veladamente sua atenção, com o que ela não olhou pra trás. Mas em meu ser, eu sabia que sua cadência era uma espera pera minha chegada. Nos metros daquele pátio que separavam o estacionamento da condução, ainda tive a presença de espírito de tentar acertar o passo. A distância ora diminuía, ora aumentava. Alguns outros passeavam por ali, chaves de carro na mão, almas finadas. Ela nunca olhou para trás, em nenhum momento.

A distância, que se encurtava cada vez mais, trazia-me para a conclusão íntima de chamá-la, desfecho do filme em câmera lenta. Pouco a pouco, elaborava as frases que usaria para conseguir trazê-la ao meu labirinto: mostrar-lhe alguns caminhos e outros desvios, no emaranhado poético que é a vida. Não sei porque, tive a certeza de que se eu falasse qualquer frase, tudo se encaminharia, aos trancos e barrancos que fosse, mas ali seria o início.

E foi com esta cena: ela flutuando à minha frente, em uma noite sem ventos, onde as luzes frias não conseguiam trazer nenhum calor porque todo o brilho do momento estava concentrando em sua silhueta, e na qual eu caprichosamente, passos atrás, partilhava com o universo a total admiração pelo momento sublime, que aconteceu.

Estanquei. Deixei-a ir.

Se me perguntasses por que, juro, acho que a mentira que contei a mim é que não era um bom momento. Haveria outras chances. A vida sendo tão imensa, não poderia se esgotar naquela perseguição lenta, naquele jogo onde ninguém ganharia nada, só eu teria a perder, mormente eu era o único a jogar. A vida deveria ser maior, mais brilhante que ela, mais movimentada, mais acelerada...

Na verdade, o que me fez acovardar no instante exato foi a imagem que saltou à mente, imagem esta que obnubilou a estética da perfeição que eu estava seguindo. Sem nenhum motivo aparente, fui acometido por uma paralisia tremenda após me lembrar da senhora e suas cortinas.

Seu abrir e fechar incessante; seu obturador perscrutando minha vida inteira da janela ampla de seu quarto; dos olhos que podiam me ler completamente e me julgar por qualquer falha, mínima que seja. A senhora que conseguiu extinguir meu movimento. E eu vendo minha atriz esvaindo-se nas brumas que surgiram lentamente na noite, trilhando seu caminho que eu ainda achava que um dia poderia conhecer.

O futuro foi que não me ocorreu nada disso.

No domingo, soube que meu pai falecera. Viajei à minha terra para seu funeral e para enterrá-lo. Quando voltei, uma semana depois, ela havia partido de nossas salas. Acho que alçara outros sonhos.

Sentia-me tão minúsculo àqueles tempos que nunca perguntei nada a ninguém sobre ela: quem era, seu nome, de onde veio ou para onde foi, qualquer contato.

Quando dei por mim, ninguém mais se lembrava dela em suas vidas.

Isso foi há muito tempo... é bem provável que seja tudo parte do mesmo sonho, que persigo há tanto tempo e, imerso, faça parte; navego por ele, luto por ele, sou constantemente trazido à praia após inúmeros deslizes. Vendo com olhos distantes, não acho que tenha perdido tanto ao extirpar mais esta escolha de minha vida.

O que sobrou? Talvez um quê de como pudesse ter sido.

Mas já não me autorizo a sonhar mais que isso.

-----

"I was flying through space
and I knew it was a dream
cause I never flew before

and the stars were going past me
and the planets were going past me
and I knew it was a dream

cause I never flew before

I went further and further away until I saw this tiny blue planet
and something made me want to go there
and I thought it was a dream
cause I never flew before

and I went down to this little planet..."
DMB - #41 (20/04/2002)

Um comentário:

Anônimo disse...

http://www.sendspace.com/file/agafjw

... para quem ousar se aventurar ...
Apertem os cintos!!! Boa viagem!!!